Parceria em nome da ciência

18/12/2017 09:20

Laboratório da UFSC atua há mais de 20 anos em pesquisas na área de virologia humana e ambiental

Rosiani Bion de Almeida

Ideia pioneira que se consolidou e se projetou para além da universidade, o Laboratório de Virologia Aplicada (LVA) da UFSC existe há 25 anos e faz parte da jornada acadêmica de Cláudia Maria Oliveira Simões, do Centro de Ciências da Saúde (CCS), e Célia Regina Monte Barardi, do Centro de Ciências Biológicas (CCB). Duas professoras com um objetivo em comum: desenvolver as primeiras pesquisas com vírus na instituição.

Criadoras e coordenadoras do LVA, Cláudia e Célia consolidaram, ao longo dos anos, um trabalho comprometido com “a geração de conhecimento científico e formação de pessoal altamente qualificado”. Isso se traduz na orientação de alunos brasileiros e estrangeiros e na atuação de egressos do laboratório na própria UFSC, em outras universidades, órgãos governamentais, fundações, institutos e centros de pesquisa.

O começo de tudo

Em 1992, no início dessa trajetória, Cláudia havia acabado de retornar do seu doutorado em Ciências Biológicas e da Saúde pela Universidade de Rennes I, na França, e Célia Barardi havia recém-ingressado na UFSC e trabalhava em cooperação com o Laboratório Central de Saúde Pública de Santa Catarina (Lacen).

O primeiro espaço físico do LVA era localizado nas antigas dependências do Laboratório de Anatomia Patológica, onde permaneceu até 1997. A atual estrutura, no terceiro andar do Departamento de Microbiologia, Imunologia e Parasitologia (MIP), possui ambientes próprios para ensaios envolvendo cultura de células, processamento de amostras, análises microbiológicas, bioacumulação de agentes infecciosos, manipulação de ácidos nucléicos e eletroforese.

Hoje Cláudia e Célia lideram dois grupos de pesquisa, dos quais participam alunos e professores dos programas de pós-graduação em Farmácia e em Biotecnologia e Biociências. Cláudia desenvolve a linha de pesquisa “Análise e desenvolvimento de fármacos de origem natural” e Célia, a de “Patógenos ambientais”.

Nas pesquisas que Cláudia coordena — envolvendo produtos de origem natural ou sintética com atividades farmacológicas para a promoção do potencial biotecnológico e farmacêutico da biodiversidade nacional —, o LVA executa a parte pré-clínica: a triagem das amostras e a elucidação dos seus mecanismos de ação, envolvendo infecções virais ou alguns tipos de cânceres.

“Para um medicamento chegar ao mercado, ele passa por um longo processo de pesquisa e desenvolvimento. O nosso trabalho consiste nas etapas iniciais”, explica. A pesquisadora conta com a parceria de grupos nacionais e internacionais para estudos de produtos oriundos da biodiversidade brasileira. São analisadas plantas medicinais, fungos (cogumelos), animais terrestres e marinhos (esponjas, corais, ostras, camarões e outros) e compostos obtidos por síntese ou semissíntese.

O grupo de pesquisa já avaliou cerca de 1500 extratos brutos e purificados de origem natural, e mais de mil substâncias sintéticas, gerando a publicação, até o momento, de 171 trabalhos em periódicos científicos e cinco pedidos de proteção intelectual ao Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI).

Desde 2007, o LVA estuda também a absorção intestinal e tópica dos medicamentos e sua aplicação, utilizando metodologias in vitro e ex vivo. Para isso, estabeleceu parcerias com as universidades de Uppsala, na Suécia, e a de Monash, na Austrália, e obteve apoio financeiro do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Estado de Santa Catarina (Fapesc).

De 2009 a 2014, o LVA participou da Rede de Nanobiotecnologia Nanofito, com financiamento da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). A UFSC, em conjunto com as universidades federais de Minas Gerais e do Rio Grande do Sul, avaliaram as ações anti-herpética e antitumoral de produtos naturais com base nanotecnológica.

Nesse mesmo período, Cláudia participou de dois importantes projetos internacionais financiados pelo International Research Staff Exchange Scheme (IRSES), e pela Fundação Marie-Curie, da Comunidade Europeia. O primeiro, que envolveu Alemanha, Portugal, Turquia e Brasil, representado pela UFSC e UFMG, pesquisou plantas do gênero Digitalis, sua taxonomia molecular, preservação, fitoquímica, ações anti-herpética e antitumoral. No segundo projeto participaram Áustria, Grécia, África do Sul, EUA, Suíça e Brasil, representado pela UFSC e UFRGS, investigando a ação cardiotóxica de plantas medicinais brasileiras, europeias e africanas.

Os trabalhos atuais têm como objeto de estudo as cucurbitacinas e os cardenolídeos (compostos isolados de plantas nativas brasileiras ou obtidos por semissíntese) e envolvem estudos fitoquímicos, de síntese orgânica, de tecnologia farmacêutica e de aplicação de modelos in vitro e in vivo.

Frutos do mar

Em 1996 o LVA iniciou a linha de pesquisa de contaminantes do ambiente aquático, em um momento de expansão da maricultura em Santa Catarina. O estado é o principal produtor de ostras do país e, para oferecer um produto de qualidade e seguro para consumo, é analisado o nível de poluição em moluscos comestíveis e nas águas do litoral catarinense. “Trabalhamos com vírus de transmissão fecal oral e utilizamos tanto técnicas de cultura celular como molecular”, explica Célia. A bioacumulação viral, mecanismo natural de filtração dos patógenos em moluscos, é a ferramenta básica utilizada pelo LVA para a posterior detecção de vírus em ostras.

O laboratório analisa também vários tipos de bactérias e vírus entéricos que podem ser transmitidos por moluscos, conduzindo estudos referentes à depuração das ostras em tanques com luz ultravioleta. Além de detectar vírus como os da Hepatite A, Rotavírus, Norovírus e Adenovírus, o monitoramento permite que seja avaliada a quantidade de coliformes nas águas de cultivo e a presença de bactérias dos tipos salmonelas e estafilococos.

Em 1998 o LVA passou a integrar o Brazilian Mariculture Linkage Program (BMLP), dirigido pelos professores Carlos Rogério Poli, do Centro de Ciências Agrárias (CCA/UFSC), e Jack Littlepage, da Universidade de Victoria, no Canadá. Durante os cinco anos de convênio, o laboratório recebeu apoio financeiro da Agência Canadense de Desenvolvimento Internacional, o que permitiu que adquirisse equipamentos e se estruturasse nessa linha de pesquisa. Nesse período houve intensas colaborações e intercâmbio de docentes e discentes entre Brasil e Canadá. Foram oferecidos cursos de treinamento de controle sanitário de moluscos bivalves nas universidades federais do Espírito Santo, Bahia, Maranhão e Rio Grande do Norte.

Recentemente, o LVA conduziu um projeto colaborativo com o Instituto Chico Mendes de Conservação e Biodiversidade (ICMBio) para avaliar a qualidade sanitária da espécie Amalocardia braziliensis, popularmente conhecida como berbigão, ameaçada de extinção.

Além dos estudos envolvendo a maricultura, o LVA atua em outra frente de interesse para a economia catarinense: a suinocultura. Os pesquisadores avaliam o reuso seguro de águas, além dos produtos de biodigestores para posterior utilização como biofertilizantes confiáveis. Também desenvolvem trabalhos de monitoramento viral de águas de consumo e de esgoto tratado em sistemas alternativos. Atualmente, o campo de ação dos projetos na área ambiental se ampliou por meio de colaborações com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) — Suínos e Aves, de Concórdia (SC), e a de Gado de Leite, de Juiz de Fora (MG).

O LVA é um dos pioneiros da virologia ambiental no Brasil e serviu de base para a abertura dessa linha de pesquisa em outras universidades e institutos de pesquisa no país. Seus estudos resultaram, até o momento, em 77 trabalhos publicados em periódicos científicos e três capítulos de livros.

Pesquisa estuda própolis de abelha sem ferrão em células melanoma

11/12/2015 09:14
Alita Diana e Gabriel Volinger

Pesquisa desenvolvida pelo Grupo de Estudos em Interações entre Micro e Macromoléculas (GEIMM), do Departamento de Farmácia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), investiga a utilização de extratos de própolis de abelhas sem ferrão em modelo in vitro de melanoma – tipo mais grave de câncer de pele. A proposta foi da doutoranda Júlia Cisilotto, orientada pela professora Tânia Beatriz Creczynski-Pasa. O projeto, em andamento desde o início de 2013, já apresenta resultados positivos.

O câncer de pele é o mais frequente no Brasil e corresponde a 25% de todos os tumores malignos detectados. Entre eles, o melanoma é o mais grave, devido ao risco de metástase – disseminação do câncer para outros órgãos. A maioria dos casos brasileiros encontra-se na região Sul. O melanoma maligno corresponde a 4% do total de incidência de câncer de pele. Uma das linhas de pesquisa do grupo, coordenado por Creczynsky-Pasa, emprega modelos in vitro e in vivo para estudo de diferentes tipos de câncer, testando produtos naturais, semissintéticos e sintéticos, com atividade antitumoral.

Própolis é produto de resinas colhidas por abelhas nas cascas das árvores ou brotos. Esta resina é processada, e os insetos a utilizam para proteção, vedação e desinfecção da colmeia. Os antigos egípcios já usavam própolis como um cicatrizante natural, cujas propriedades são alvo de pesquisa atual. Cada espécie de abelha o produz com características diferentes, em termos de composição química, aspecto e propriedades medicinais. As abelhas Tubuna e Mandaçaia são encontradas na América Latina; no entanto, as propriedades do própolis produzido por ambas as espécies ainda foram pouco estudadas.

As pesquisas de Cisilotto se voltaram aos produtos dessas abelhas e encontraram resultados efetivos in vitro contra células de melanoma humano. De acordo com a doutoranda, os resultados foram satisfatórios. “A análise da concentração, comparada com a de outros artigos envolvendo outros tipos de própolis, mostrou melhores resultados. Precisou-se de uma quantidade mais baixa de extrato para atingir o efeito citotóxico [responsável pela morte da célula cancerígena]”, afirma.

Desenvolvimento da pesquisa

O própolis estudado foi coletado pelo melipolinicultor Pedro Faria Gonçalves, no sítio Flor de Ouro, localizado na região centronorte de Florianópolis.

A equipe responsável pela pesquisa conta com a participação da bolsista de iniciação científica, Débora Joppi, e com a pós-doutoranda Heloisa Fernandes, que colaboram nos estudos in vitro. Enquanto isso, Júlia Cisilotto, que propôs a pesquisa, analisa as propriedades químicas do própolis, com a colaboração da professora Maique Weber Biavatti, especialista em Farmacognosia – ramo que estuda princípios ativos de produtos naturais. O trabalho é complexo, uma vez que o própolis varia de acordo com o inseto, o clima e o local da coleta.

No momento, o grupo está desvendando os mecanismos de ação dos extratos – como eles estão induzindo a morte de células de melanoma. Os extratos foram testados em uma linhagem celular não tumoral, e foi possível observar uma maior seletividade para a linhagem maligna. O efeito dos extratos também foi testado junto com o medicamento vemurafenibe (utilizado para tratamento de pacientes com melanoma), e o efeito da combinação foi melhor que quando o fármaco foi testado isoladamente. Além disso, com o extrato da abelha Mandaçaia foi possível observar um acúmulo de células na fase G2/M, o que pode estar proporcionando um retardo na progressão do ciclo celular, diminuindo a proliferação das células.

A pesquisa está ainda em andamento, e já foi observado que o extrato de própolis da abelha Mandaçaia apresenta resultados mais efetivos, mas ainda não se sabem os componentes que possibilitam o efeito. “Há ainda a possibilidade de sinergismo, ou seja, pode ser que haja um conjunto de componentes que o faça funcionar”, explica a pesquisadora Tânia Beatriz Creczynski-Pasa.

Mudança de Hábito

11/12/2015 09:07

Tese propõe atividades para estimular uso de bicicleta

Camila Geraldo

Joinville foi conhecida como “a cidade das bicicletas”, por causa de seus muitos operários e poucos morros. No entanto, após os anos 1970, trabalhadores que costumavam pedalar até as empresas trocaram o antigo hábito por automóveis e motocicletas – situação comum nas cidades brasileiras. Essa foi uma das motivações que levou a pesquisadora Ilca Maria Saldanha Diniz, em tese defendida no Programa de Pós- Graduação em Educação Física (PPGEF) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), a analisar os efeitos que atividades educativas, como palestras e vídeos, podem causar ao incentivar os funcionários de uma indústria a ir ao trabalho de bicicleta.

A pesquisa, orientada pela professora Maria de Fátima da Silva Duarte, observou, durante seis meses, os meios de deslocamento de 932 funcionários de uma indústria metal-mecânica de Joinville. Foram elaboradas atividades que consistiam em aulas informativas e práticas, apresentações em vídeo, palestras, jogos e leitura de cartilhas de segurança – tudo elaborado a partir das necessidades do trabalhador. As temáticas expostas aos industriários foram a relação do uso da bicicleta com o meio ambiente, saúde, itens de segurança necessários e leis de trânsito.

Para descobrir os efeitos, a pesquisadora montou um Grupo Intervenção (GI) e um Grupo Controle (GC), que, após perdas amostrais no final do estudo, contavam com 876 trabalhadores, 438 em cada. O resultado do estudo foi o aumento de 2,2% no número de funcionários do GI que passaram a se deslocar de bicicleta. “Nós não tínhamos ideia de quanto aumentaria ou se teriam alguma resposta às atividades. Em pesquisas, o máximo de mudanças que vimos em programas no Brasil e no exterior, por meio de educação, foi de 3% de aumento nos fins desejados. Deu muito certo, um resultado positivo”, diz Ilca. A pesquisadora também considerou que, pelas interações terem sido realizadas por somente seis meses esses efeitos foram surpreendentes.

Em outros programas de incentivo ao uso da bicicleta, as atividades educativas foram desenvolvidas por um maior período de tempo, entre 12 e 18 meses.

No estudo, os trabalhadores foram divididos em os que usavam e os que não usavam bicicleta para se deslocar até a indústria. A metodologia empregada consistiu em formar grupos de pessoas com interesses e hábitos semelhantes e desenvolver atividades específicas a cada. A partir disso, em 23 encontros, foram aplicados questionários para compreender as características dos trabalhadores e estimular a forma de transporte. “No processo, as pessoas foram classificadas em estágios, que dependem do hábito que o funcionário tem de pedalar, pois as informações que precisamos dar para que a pessoa mude de comportamento depende da experiência de cada um”, explica Ilca.

De acordo com a pesquisa, é necessário melhorar todo o processo educativo no Brasil em relação à bicicleta, considerando-se o município em que a atividade está sendo aplicada e as pessoas para quem são destinadas as aulas, principalmente nas escolas e ambientes de trabalho. Na realidade daqueles industriários, foi verificado que as maiores barreiras para escolher o meio de transporte eram o trânsito intenso, a distância percorrida para chegar ao destino e o clima desfavorável. Também foram listados os principais motivos para escolher a bicicleta: melhora da saúde, prática de exercícios físicos e proteção ao meio ambiente.

Pelos questionários respondidos, foi possível descobrir que a maioria dos trabalhadores relatou ter ensino médio completo ou curso técnico, com renda familiar entre R$ 1.080 e R$ 2.700. Algumas características predominavam nos trabalhadores que mais pedalavam até a indústria: menor renda, residência à distância menor ou igual a cinco quilômetros, menor escolaridade e posse de bicicleta – cerca de 72% a tinham.

Na opinião da pesquisadora, o que mais influencia o uso da bicicleta é a ciclovia. “Em torno da indústria que estudamos, havia ciclovia em todos os pontos: ciclovia mesmo, não somente uma faixa pintada onde se diz que pode passar a bicicleta. Hoje, as maiores cidades catarinenses ou não têm ciclovias ou, quando têm, elas são interrompidas em alguns pontos e não garantem segurança. Temos que criar a cultura da infraestrutura ciclística e do respeito ao ciclista”, completa.

Um estudo realizado pelo Sesi em 2009 apontou que, no estado de Santa Catarina, a prevalência do uso da bicicleta no deslocamento ao trabalho é em Joinville, com 12,8%. As outras duas cidades catarinenses com maior número de pessoas que costumam pedalar até o trabalho são Lages (12,3%) e Blumenau (7,5%). Muitas das informações contidas na tese serviram de subsídio à formulação de um manual para indústrias do Senai/ Sesi, que está sendo distribuído em todo Brasil.