ICE

19/12/2019 15:27

Segurança nos extremos do mundo (e fora dele)

Gabriel Martins

“Em caso de despressurização, máscaras de oxigênio cairão automaticamente dos compartimentos localizados acima dos assentos”. Esta e outras medidas anunciadas a todos os que viajam em aviões comerciais são exemplos de protocolos de segurança. No decorrer de um voo uma série de observações também são transmitidas aos comissários de bordo, estabelecendo os passos que devem ser seguidos e a rotina de verificações de equipamentos e orientações aos passageiros. Os protocolos são determinações de segurança preventiva e rotinas de trabalho. Há locais em que os protocolos de segurança são ainda mais necessários: os ambientes isolados, confinados e extremos (ICE), como os polos, as plataformas oceânicas de petróleo e as estações espaciais. O que torna esses lugares delicados não é somente o seu caráter extremo, mas o estresse físico e psicológico que a permanência neles implica. Um dos trabalhos científicos pioneiros nesses estudos se desenvolve na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) que, desde 2014, realiza um projeto de pesquisa junto ao Programa Antártico Brasileiro (Proantar) para elaborar protocolos de segurança em ambientes confinados, isolados e extremos, o estudo “Fatores Humanos em Regiões Polares”.

Comportamento seguro e acidentes em ambientes ICE

Em 2012, um acidente na estação de pesquisa brasileira na Antártica ocasionou um incêndio que matou dois cientistas e causou a perda de meses de estudos científicos. A investigação concluiu que o incêndio ocorreu devido a um erro humano na verificação dos protocolos de segurança. A tragédia, no entanto, não é um caso isolado em expedições em locais ICE. Em ambientes hostis como esses, os protocolos de segurança podem ser insuficientes se forem limitados a rotinas de verificação de equipamentos e suprimentos, sem considerar os fatores humanos envolvidos na permanência em locais dessa natureza. Estar em locais isolados, por longos períodos, convivendo com um pequeno – e por vezes diferente – grupo de pessoas pode acarretar em desgastes psicológicos que corroem anos de treinamento técnico. Com isso, pouco a pouco pesquisas são desenvolvidas visando compreender as variáveis psicológicas em ambientes isolados, confinados e extremos. Esses estudos consideram que a longa estada nesses locais implica alterações biológicas e comportamentais que podem resultar em desastres.

Ambientes ICE: quando o risco não é somente ambiental

ICE são todos os ambientes com a combinação de duas ou mais das seguintes características: isolado, confinado e extremo. Os ambientes ICE podem ser naturais ou frutos do trabalho humano:

Naturais Criados pelo ser humano
  • cavernas
  • desertos
  • polos
  • montanhas distantes
  • plataformas oceânicas de petróleo
  • embarcações que realizam longas viagens
  • submarinos
  • estações espaciais

A definição de ICE considera não somente as características do ambiente em si, mas de seu entorno e de sua dinâmica (isolado). Assim, os fatores ambientais – como clima e estrutura – devem ser acrescidos aos efeitos biológicos e psicológicos decorrentes de ficar por muito tempo em um lugar que, além de extremo ambientalmente, também pode implicar isolamento social ou confinamento.

Paola Barros Delben, coautora do projeto, alerta que fatores como baixa exposição solar, convivência constante com o mesmo grupo de pessoas, afastamento de amigos e família, dificuldades em acomodação, ausência de opções de lazer, desconforto e a baixa variedade de alimentos, entre outros, “podem acarretar mudanças comportamentais que colocariam em risco os envolvidos em missões científicas, militares, comerciais ou mesmo esportivas”.

Fatores que podem desencadear modulações de comportamento
  • Saudade de familiares;
  • dificuldades em conciliar culturas e visões de mundo distintas em equipes variadas;
  • conviver com as mesmas pessoas reunidas por longos períodos;
  • isolamento;
  • clima;
  • temperatura;
  • dificuldades com alterações alimentares;
  • longas jornadas de trabalho;
  • repetitividade de atividades;
  • alterações hormonais e carências decorrentes de baixa exposição solar ou alterações na dieta alimentar.

Em ambientes ICE, em que os riscos à vida são maiores que em voos comerciais, mais do que checar equipamentos e realizar rotinas, é necessária a capacidade psicológica para lidar com o isolamento ou o confinamento por longos períodos. Os efeitos psicológicos de eventos recorrentes a ambientes isolados, confinados e extremos podem significar alterações hormonais e de humor e estresse físico e psicológico. A combinação de um ou mais desses fatores pode ocasionar um efeito ainda mais nocivo: a modulação de comportamento. Este fenômeno significa que toda pessoa, quando desgastada por fator estressor, pode agir de maneira imprevista. Isso pode prejudicar a cooperação entre equipes e colocar em risco o que é conhecido como comportamento seguro, ou seja, a atenção cotidiana aos protocolos de segurança.

Segurança no extremo sul do mundo

A Antártica é um ambiente ICE e, por isso, a observação a uma série de protocolos de segurança é indispensável. Por exemplo, o cuidado com as formas de produção de energia, estabilização da temperatura ou filtragem de água e ar. Nesse sentido, o projeto “Fatores Humanos em Regiões Polares” tem por objetivo desenvolver uma proposta de gerenciamento do comportamento seguro, o que tende a prevenir o risco de acidentes, os adoecimentos e as crises entre os integrantes das equipes de trabalho.

O projeto se baseia em pesquisas de campo nas áreas de atuação do Proantar e envolve uma equipe interdisciplinar com pesquisadores da área de Psicologia, Biologia, Medicina, Engenharia Mecânica, Direito, entre outros.

Desde 2014, o projeto é coordenado por Roberto Moraes da Cruz, professor do Departamento de Psicologia da UFSC, e tem coautoria de Paola Barros Delben. Foi na graduação que Paola apresentou a proposta de estudar os fatores psicológicos em ambientes ICE. Ela segue focada nessa área de pesquisa, desde a iniciação científica (Pibic) na graduação e, até hoje em dia, em seu projeto de doutorado,sempre sob orientação do professor Roberto. O estudo conta, ainda, com a colaboração da pesquisadora Agnieszka Skorupa, do Centro de Estudos Polares da Polônia que, em 2019, estendeu o campo de estudo ao Ártico.

Paola tem participado, desde o princípio do projeto em 2014, de expedições ao continente meridional onde acompanha e realiza pesquisas com cientistas e militares em etapas antes e depois das missões.

Como resultado da pesquisa, o projeto tem sido pioneiro no desenvolvimento de protocolos de segurança que consideram os fatores humanos, além dos ambientais, para assegurar formas seguras para longas missões em ambientes ICE.